No dia 25 de julho, no ginásio do Pacaembu, uma tela se acendeu e um homem que não podia falar falou aos seus. Jair Bolsonaro cumpre pena com restrição de comunicação, e ainda assim discursou na convenção que lançava a candidatura do filho. A primeira coisa que fez foi avisar que não era ele: aquilo era uma simulação da sua imagem e da sua voz, feita com inteligência artificial. Só então apresentou Flávio como o sucessor que havia escolhido, sangue do seu sangue. Uma projeção abriu aquele discurso avisando que era uma projeção e, mesmo assim, virou alvo de ação no Tribunal Superior Eleitoral e no Supremo.
Quem sou eu para dizer se aquilo podia ou não podia. A legalidade está no tribunal, e é lá que deve ficar. O que me prende naquele ginásio é outra coisa, e não tem nada de jurídico. É 2026, e hoje a realidade precisa de crachá. Repare na inversão, porque ela é silenciosa: até outro dia, quem inventava é que tinha o trabalho de convencer. Agora é o que aconteceu de verdade que precisa provar quem é.
Em janeiro, o Fórum Econômico Mundial colocou a desinformação em segundo lugar entre os riscos globais mais severos de curto prazo, e explicou por quê: ela é o que acelera todos os outros riscos da lista. Guerra, clima, economia: tudo passa por aí. Quando some o acordo mínimo sobre os fatos, não se perde uma discussão, perde-se a capacidade de ter qualquer uma.
Yuval Harari leva o raciocínio até o fim. Para ele, democracia é conversa e ditadura é monólogo, e o que separa as duas não é a eleição: é a capacidade de se corrigir. As democracias morrem, escreve ele, não só quando as pessoas não são livres para falar, mas também quando não estão dispostas ou não são capazes de ouvir.
E pode até ser que ele esteja certo, caro leitor. Só que o fim dessa conversa já foi projetado antes, mais de uma vez, e custa caro para mim não querer saber no que deu.
Comecemos pela internet, que entrou nas nossas casas com um som de modem que ninguém que viveu aquilo esqueceu. O medo do cidadão comum era do estranho: não dê seu nome verdadeiro, não diga onde mora. Os especialistas avisavam outra coisa, que uma sociedade em que ninguém lê a mesma coisa acaba se despedaçando. Não foi nem uma coisa nem outra: caiu o intermediário, publicar deixou de custar dinheiro, e quem só recebia passou a distribuir.
Depois vieram as redes sociais, e com elas o medo que dominou a década: a bolha, o algoritmo mostrando a você apenas aquilo que você já pensa. Exceto que a bolha não se confirmou, e o que mudou foi outra coisa: a indignação ficou lucrativa.
E não podemos esquecer do bom e velho Zap. Esperava-se que, com ele, o vídeo forjado decidiria tudo. E não decidiu. O que circulou no grupo da família foi coisa bem mais barata: foto antiga com legenda nova, áudio recortado. Não precisou de tecnologia nenhuma, e funcionou melhor porque não chegava de um desconhecido, chegava da sua tia. A mentira não precisava ser boa, precisava vir de alguém em quem você confia. E a tia continuou mandando, sem perceber que o que ela enviava havia mudado.
Enquanto a gente aprendia a desconfiar da distribuição, ficou mais fácil fabricar do zero. Deepfake é o nome que se deu a um vídeo ou áudio em que o rosto ou a voz de uma pessoa real são feitos por máquina, bem o bastante para passar por registro. Em 2017 aquilo exigia equipamento, tempo e perícia. Hoje é assinatura mensal, e clonar uma voz custa poucos dólares. Por quase dez anos, a esmagadora maioria das deepfakes em circulação foram pornografias fabricadas sem consentimento. O mundo conviveu com aquilo sem chamar de crise, e só chamou quando a mesma técnica chegou perto de uma urna. E, quando ela enfim chegou à nossa política, chegou com aviso, projetada numa tela diante de uma convenção.
Repare no padrão. Em todas as vezes o medo era legítimo e mirava o lugar errado, o que mudou de verdade foi menos vistoso do que aquilo que se temia, e a sociedade se adaptou antes de a lei chegar. Cada geração projetou na máquina nova o medo que já trazia, e depois se assustou com o próprio reflexo.
E existe uma prova recente. Em 2024, com eleição em dezenas de países ao mesmo tempo, o mundo virou laboratório sem querer. Alguém foi contar quantas peças de desinformação feitas com inteligência artificial de fato viralizaram na eleição britânica. Esperava-se uma enxurrada. Contaram dezesseis. E não se achou evidência de que uma só delas tivesse movido um resultado. Do outro lado do Atlântico, um painel catalogou novecentos e quarenta e um conteúdos falsos na eleição americana, e a máquina aparecia em apenas seis por cento deles. O ano inteiro acabou resumido no título de um artigo acadêmico: construímos detectores para uma ameaça que não chegou.
Mas aqui, caro leitor, é bom que eu pare de te tranquilizar.
Existe uma diferença de natureza desta vez, e ela não está na qualidade da falsificação: está em quem pode fabricar. Até aqui, o cidadão distribuía aquilo que outra pessoa produzia, porque produzir exigia estrutura. Desde que o ChatGPT abriu ao público, no fim de 2022, não exige mais. Começou por texto, e texto não engana ninguém. Depois veio a voz, depois o vídeo, e agora um homem preso apresenta um sucessor num ginásio. Pela primeira vez, a máquina não ampliou o que a gente dizia. Ela passou a dizer no nosso lugar.
E dizer no lugar de alguém não é o problema. O problema é para quem. Toda tecnologia de campanha, até agora, falava com multidão: o rádio para os ouvidos atentos, a televisão para a sala de casa, a rede social para o feed de milhões. A máquina fala com um. Num experimento com novecentas pessoas, publicado na Nature Human Behaviour, o GPT só foi mais persuasivo que um ser humano quando teve acesso a dados pessoais dele. Sem esses dados, empatava. Não foi a narrativa que melhorou. Foi ela que passou a ser feita sob medida, para uma pessoa só.
E é aqui que a conta chega para você. A campanha, até ontem, era pública. Todo mundo via o mesmo programa no horário eleitoral e podia discordar porque discordava da mesma coisa. O que chega hoje no seu telefone é só seu. Ninguém mais viu, ninguém pode conferir, ninguém pode desmentir, e nenhuma checagem alcança aquilo que existiu apenas na sua tela. Você não é enganado em praça pública. Você é convencido sozinho, e não sobra testemunha. Repare na ironia daquele ginásio: o vídeo virou processo no Supremo justamente porque milhões viram a mesma coisa ao mesmo tempo. Enquanto o que deveria assustar é o contrário.
A nossa regra, aliás, é a mais ambiciosa do mundo: manda rotular toda propaganda eleitoral feita com inteligência artificial, proíbe imagem e voz de candidato geradas por máquina às vésperas do voto e exige plano de conformidade das plataformas. Repare no alvo de tudo isso: circulação.
Volto, então, ao Harari, porque a pergunta dele tem duas partes. Ele perguntou o que seria do debate democrático quando milhões de máquinas não apenas escrevessem manifestos convincentes e fabricassem vídeos falsos, mas também conquistassem a nossa confiança e a nossa amizade. A nossa regra responde à primeira parte em detalhe. Sobre a segunda, não há uma linha. E o instrumento que poderia tratar disso, o Marco Legal da Inteligência Artificial, foi aprovado no Senado em dezembro de 2024 e empurrado na Câmara para mais tarde deste ano, depois das eleições.
De tudo o que se projetou sobre inteligência artificial e eleição, a única projeção que está se cumprindo é a metade que ninguém regulou. Não é o vídeo falso que engana multidões. É a máquina que aprende a merecer a sua confiança, conversando com você e com mais ninguém. Você, sozinho no escuro, diante de uma tela acesa, achando que está olhando o mundo quando boa parte do que está ali é a sua própria sombra. Da próxima vez que chegar alguma coisa feita sob medida para você, faça a pergunta que a praça pública fazia sozinha e a tela não faz mais: quem mais viu isto?
Repare que, no Pacaembu, todo mundo viu. Era uma projeção que se anunciou projeção, diante de milhares de testemunhas, e foi por isso que ela pôde virar processo, notícia e discussão de mesa de bar. Guarde a cena, caro leitor. O país inteiro discordou da mesma coisa. Ainda é 2026, e isso já é raro.