O Cobogó

Com a palavra, o Brasil

Todo setembro, na sede da ONU em Nova York, o presidente da Assembleia Geral anuncia o Brasil antes de anunciar qualquer outro país. Em seguida, anuncia o anfitrião, os Estados Unidos. Repare na ordem. Meses antes, nos bastidores, o Secretário-Geral escreve à Missão do Brasil, a nossa embaixada junto à ONU, perguntando se, de acordo com a praxe, o chefe da nossa delegação deseja ser o primeiro orador. A resposta é sempre sim. É assim desde os anos 1950, e não há uma linha da Carta da ONU que o determine. O Brasil tem a primeira palavra do mundo por costume, e o costume vive de uma pergunta educada.

Há várias versões para explicar o costume, quase todas bonitas. Eu prefiro ficar com a que a ONU e o Itamaraty contam. Nos primeiros anos, ninguém queria abrir os trabalhos, e o Brasil se oferecia. Abriu em 1949, em plena Guerra Fria, para que a primeira palavra não fosse nem de Washington nem de Moscou, e em 1955 o arranjo se fixou, com os Estados Unidos quase sempre na segunda fala. Desde então nós abrimos todos os debates gerais, salvo duas exceções. Ganhamos a palavra porque os outros a dispensaram, e a guardamos porque nunca a largamos.

No dia 22, terça-feira, começa o debate da Assembleia Geral da ONU, a semana em que os chefes de Estado sobem à tribuna. Apesar do lugar privilegiado de fala, não deve ser sobre o Brasil que o mundo vai falar. Um historiador finlandês, Jussi Hanhimäki, escreveu numa história da ONU que o debate de setembro virou ritual e só rende notícia quando aparece um figurão. Escreveu isso em 2008, e a frase envelheceu bem. De quem fala antes do figurão, não se escreveu uma linha. Veja: se o primeiro orador do mundo não merece uma linha, é porque ser o primeiro a falar e poder são coisas diferentes, e o historiador sabe disso. Por isso a minha pergunta não é o que o Brasil vai dizer na terça-feira, e sim quanto vale falar primeiro numa casa em que a última palavra pertence a cinco países.

Essa última palavra tem uma história, e ela não é brasileira. Imagine um clube fundado depois da Primeira Guerra para evitar a Segunda: a Liga das Nações. Quando o clube contrariava um sócio forte, o sócio forte ia embora, como fizeram Japão, Alemanha e Itália nos anos 1930. Sobrou um clube cheio de regras e vazio de quem pudesse fazê-las valer, e a Segunda Guerra veio. Em 1945, em São Francisco, os cinquenta países que negociaram a Carta da ONU tinham essa lição fresca, e a solução coube numa palavra: veto. Os cinco vencedores da guerra ganhariam a última palavra. Nada passaria contra eles, e por isso nunca precisariam sair. Era o incentivo para ficar, e também o meio de travar a organização quando quisessem. É o mesmo veto que hoje trava resoluções sobre Gaza e sobre a Ucrânia. Os outros quarenta e cinco engoliram, porque a alternativa era não haver ONU. O veto foi o preço de existir uma ONU, e todos pagaram na entrada. Sobrou, no fim da Carta, uma promessa de consolo, escrita no Artigo 109: dali a dez anos, a Assembleia teria de decidir se convocava uma conferência para rever o texto inteiro.

Dez anos depois era 1955. Repare na coincidência: a sessão em que o Brasil consolidou a primeira palavra foi a mesma em que a ONU teve de decidir se cumpria a promessa. E o Brasil gastou parte da fala com isso. O embaixador Cyro de Freitas-Valle lembrou, da tribuna, que, em 1945, o Brasil propusera rever a Carta a cada cinco anos, sem veto, e perdera; e pediu que a Assembleia decidisse ali mesmo convocar a conferência. Em novembro, por 43 votos a 6, com nove abstenções, a Assembleia decidiu que sim: a conferência seria realizada em momento oportuno. O momento oportuno tem hoje setenta e um anos e ainda não chegou. O mesmo historiador, falando da reforma do Conselho, resume a razão de fundo numa frase que parece piada e é regimento: qualquer tentativa de remover o veto estava fadada a ser vetada.

Porém, caro leitor, por agora, chega de história. A pergunta do início era quanto vale a primeira palavra, e a resposta está nas próximas semanas, no dia 22.

O discurso do Brasil, a esta altura, já está escrito, e não por mim. Vai ter soberania, que é a palavra do ano; vai ter tarifaço, com o autor das tarifas a poucos metros dali; vai ter Gaza, que o presidente chamou de genocídio na mesma tribuna no ano passado; vai ter a reforma do Conselho de Segurança e um freio ao veto dos cinco, que em abril ele chamou de senhores da guerra. Nada disso é novidade, e é justamente esse o ponto: nós já sabemos o que vamos ouvir, e o plenário também. A doze dias do primeiro turno das eleições, a viagem será curta, e o público que importa não está no plenário: está do lado de cá do globo, com o título de eleitor já na mão. Já escrevi aqui, a propósito de Franca, o que o próprio presidente ensinou: discurso é só palavra, e o adversário às vezes nem escuta. Mas o eleitor escuta cada sílaba.

Do lado de lá, fala em seguida o homem das tarifas. No ano passado ele usou a mesma tribuna para dizer que o Brasil vai fracassar sem os Estados Unidos e, no mesmo fôlego, contou que tinha havido química entre os dois. Desde então, um encontro na Casa Branca em maio, tarifas novas em julho e, agora, a expectativa de um encontro de corredor em Nova York. Trump não precisa pedir nada à ONU. Ele é um dos cinco. Quando quer, veta. O primeiro orador vai à tribuna pedir que a casa mude. O segundo é um dos donos da casa, e dono não sobe à tribuna para discutir a escritura.

E o que vai vingar? Desta Assembleia em particular, provavelmente pouco. O pedido de reforma vai receber a resposta de 1955, em qualquer língua, e você já sabe reconhecê-la. Em casa é diferente. Soberania rende voto, crítica ao autor das tarifas rende mais, e o presidente sabe disso melhor do que qualquer diplomata. Não é escândalo, é costume da cadeira: Dilma abriu o debate de 2014 dizendo que o fazia às vésperas de eleições, e Bolsonaro abriu o de 2022 a doze dias do primeiro turno. A tribuna sobrevive a quem senta nela.

Devolvo a pergunta que o trouxe até aqui. Quanto vale a primeira palavra? Em Nova York, vale um momento oportuno, que é o nome educado que a casa dá ao não. Em casa, vale o que render no dia 4.

Daqui a um ano, a nota de praxe vai chegar de novo à Missão do Brasil, com a pergunta de sempre, e receberá a resposta de sempre. Quem subir à tribuna em setembro de 2027 já terá sido escolhido em outubro, e vai encontrar a mesma casa, os mesmos cinco donos e a mesma promessa de 1945 à espera do momento oportuno. Ter a primeira palavra do mundo não é pouco. Pouco é usá-la só para ser ouvido em casa. A primeira palavra é nossa por costume, e o costume só vale enquanto alguém se lembra do que ele custou. Com a palavra, o leitor.

Sobre o autor
Retrato de João Andrade

João Andrade

Paraense, morou mais de uma década em São Paulo antes do desembarque em Brasília. Observador por temperamento, acompanha a política e escreve sem pauta nem obrigação, somente o que lhe interessa.

O texto termina aqui. A conversa, não.

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