O Cobogó

Fiado? Só amanhã

Em alguns botequins de antigamente havia uma placa atrás do balcão que todo freguês entendia sem precisar ler duas vezes. Dizia: Fiado? Só amanhã. Era um não com educação, porque aquele amanhã não chegava nunca. Embaixo dela, para os poucos que mereciam, ficava a caderneta, com o nome de cada um e o que cada um devia. O cartão aposentou a placa; o Pix enterrou a caderneta. Hoje quase ninguém vende fiado. Sobrou um único balcão onde a placa continua na parede, e ele só abre de quatro em quatro anos.

Este ano o balcão abre em 4 de outubro, e quem está atrás dele é o eleitor. A mercadoria é o voto; o freguês é o governo. Ele chega como chegam todos os fregueses de véspera, pedindo para levar hoje e acertar depois. Não o culpo por pedir: prometer faz parte do ofício. A diferença é que este freguês tem a caneta, e a caneta é o que separa prometer de pagar: quem a tem assina decreto e medida provisória, e a conta pode ser acertada no mesmo dia, se quiser.

Se quiser. E é aqui que este freguês se separa dos outros. A caneta assina, mas quem paga é o cofre. E o cofre, este freguês esvaziou com a própria mão.

O fato é simples: há três anos seguidos o governo gasta mais do que arrecada. E, em vez de fechar a conta, ajustou a régua. Primeiro trocou o teto de gastos por uma regra mais folgada; depois, quando a folga não bastou, rebaixou a meta; por fim, usou as exceções que a própria regra permite para declarar cumprida, no papel, uma meta que no cofre não fechava. É assim que se esvazia um cofre sem parecer que o esvaziou. E é com esse cofre que o freguês chega à véspera das eleições. Cofre vazio, caneta cheia. Eis o ano em que o freguês pede fiado e paga com fiado: a conta fica anotada no nome do próximo presidente, seja ele quem for.

Aviso logo o que este texto não é. Não vou somar o pacote de bondades das últimas semanas. Vou fazer algo mais modesto: abrir a caderneta. A pergunta que me acompanha até o fim é outra: o que pode o dono do bar diante de um freguês assim?

Chegue mais, caro leitor. A caderneta está aqui, aberta. Tem três colunas, como toda caderneta honesta: pago, a prazo, fiado. Leia comigo, que no dia 4 quem assina embaixo é você.

Pago, o que chegou antes do voto. Um aviso: esta coluna registra entrega, não mérito. Não estou julgando se as medidas são boas, nem para quem; de várias delas discordo. A régua aqui é outra, e mais simples: o que se prometeu ao eleitor e o que chegou à mão dele. Pago é pago, mesmo quando a nota, conferida depois, vale menos do que diz. A taxa das blusinhas, zerada desde maio por medida provisória, virou lei em 10 de setembro. O Move Brasil, de crédito para motorista, virou lei no dia 14. E a fila do INSS foi dada como zerada no dia 3. Nada a lançar: o freguês pagou no balcão. Com que moeda, o dono do bar descobre depois.

A prazo, o que já é ato mas só chega depois. A gasolina, o leitor reparou, não entrou na coluna anterior: o desconto vem com prazo de validade impresso no próprio decreto, 9 de outubro, cinco dias depois do primeiro turno. O subsídio ao diesel foi desenhado em ciclos de até trinta dias, e a renovação do primeiro cai depois da urna, nas mãos de quem já terá contado os votos. O reajuste do Bolsa Família foi assinado no dia 17, um mês antes do primeiro pagamento, que pelo calendário do programa cai em 19 de outubro, entre um turno e outro. As três têm o mesmo desenho: o anúncio antes da urna, a hora da verdade depois. A bondade tem data, e a data tem dono: quem precisa do voto.

Fiado, o que só existe na promessa. A medida provisória das bets, anunciada para esta sexta-feira, ainda tem que sobreviver a 120 dias de Congresso, e o Congresso só volta a votar depois da urna. Digo com todas as letras: o governo que quer proibir aposta está pedindo ao eleitor a maior de todas, pagar hoje para receber depois do resultado. A compra de dívidas antigas, a própria Fazenda já avisou que não sai em 2026. O novo teto do MEI está parado na Câmara desde agosto. E o fim da escala 6x1, que o presidente prometeu aprovar na semana do esforço concentrado do Senado, na virada de agosto para setembro, não foi votado e ficou para depois.

Sobra o rabisco na margem, onde o dono do bar anota o que o freguês diz depois de pedir o fiado, por educação, não por esperança. É a coluna dos sonhos. Está lá a canetinha que vai cuidar de graça de quem tem obesidade, sem uma linha no programa de governo. Está o Ministério da Segurança Pública, prometido em 2022, reprometido agora, e à espera de uma emenda à Constituição que não cria ministério nenhum. E está o Brasil entre as economias mais ricas e poderosas do mundo, prometido numa caminhada em Salvador, que é o sonho de todo freguês e a conta de nenhum. Isso não é fiado. Fiado tem nome e valor. Isso é conversa de balcão, e o dono do bar, que a ouve desde 1989, sorri, anota por educação e não cobra por experiência.

Feche a caderneta, caro leitor. Lida de cima a baixo, ela diz o que o freguês trouxe: pouco, e pago com dinheiro do ano que vem. O resto chega depois da urna, ou fica na promessa. Se ele disser que o cofre estava vazio, veja se ele não o esvaziou. Não se trata de um freguês sem sorte. Na realidade, é um freguês que cuidou mal do dinheiro dos outros do primeiro ao último dia do mandato e chega ao balcão, na véspera, pedindo prazo. A placa, ele conhece de cor. A caderneta, prefere que ninguém leia.

Quem está atrás do balcão não tem muito. Entrega o que lhe foi pedido no dia quatro e espera. Tem o lápis e a caderneta, no entanto, e é justamente o que o freguês torce para que tenha ficado em casa. Lá, cabe o essencial: a promessa com a data ao lado, a entrega riscada quando chega, a conversa de balcão anotada na margem. E é com a caderneta aberta que o dono do bar ouve, mais uma vez, a pergunta de sempre. Nos botequins de antigamente ele nem precisava responder: apontava para a parede, e o freguês entendia. Eu, que neste balcão anoto tudo, faço o mesmo. Para freguês como esse: fiado? Só amanhã.

Sobre o autor
Retrato de João Andrade

João Andrade

Paraense, morou mais de uma década em São Paulo antes do desembarque em Brasília. Observador por temperamento, acompanha a política e escreve sem pauta nem obrigação, somente o que lhe interessa.

O texto termina aqui. A conversa, não.

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