Numa sexta-feira de setembro de 2006, Rui Vaz Wanderley olhou o relógio de pulso e encarou a página em branco do report. Era lobista e dizia a palavra inteira, o que naquele tempo ainda fazia a mesa ficar em silêncio por um segundo. O ofício dele não era decidir nada, era saber quem tinha decidido, onde e por quê, e contar isso a um diretor em São Paulo que nunca tinha posto os pés em Brasília. Rui sabia ler a cidade: quem falava com quem, em que ordem, e o que cada silêncio queria dizer. O que cansava era traduzir isso para quem não estava lá.
Naquela sexta, Brasília tinha assunto de sobra. O esforço concentrado começava na segunda, e o presidente faltava aos debates com a calma de quem sabe que o púlpito vazio também discursa. O diretor perguntou de novo o que aquilo significava. Rui sabia até demais. Eram dez anos de sextas-feiras iguais, e naquela noite o cansaço chegou antes do report. Fechou o caderno sem escrever uma linha e pôs o Corolla prata na estrada, rumo a um lugar onde o celular não pegava.
Chegou a Alto Paraíso de madrugada. No domingo, tomou uma trilha errada de propósito e foi dar numa clareira onde uns homens jogavam bocha. Vestiam terno de linho e chapéu, como nas fotografias da inauguração de Brasília, e tinham nos gestos a paciência de quem já esperou um Congresso inteiro. Não falavam. Um deles lhe passou uma garrafa sem rótulo. O gosto era de coisa guardada. Rui bebeu, deitou numa pedra ainda quente de sol e dormiu como só dorme quem não deve report a ninguém.
Acordou com a barba no peito. O celular estava morto e o pneu do Corolla tinha murchado. Rui desceu a serra como quem chega atrasado numa segunda-feira. Era, de fato, uma segunda-feira. Só não era a que ele pensava.
Brasília estava igual. Planta baixa não envelhece, foi tombada para não envelhecer. A primeira pista veio dos carros: as placas estavam brancas, com uma faixa azul. Rui concluiu que tinha mudado a lei de trânsito, e não a década. Parou no Beirute da 109 Sul, que está lá desde 1966. Pôs uma nota de dez sobre a mesa, e o garçom apontou um quadradinho preto no balcão. Na televisão, o Senado anunciava uma semana de esforço concentrado. Rui achou que era a dele. Em seguida, uma comissão adiou uma votação para o dia seguinte.
Ainda na segunda, a mesa ao lado comentou que um ministro chamado Toffoli tinha suspendido a campanha de um candidato chamado Renan. Rui conhecia os dois: Toffoli era o advogado da campanha do Lula; Renan presidia o Senado. Perguntou desde quando o advogado do PT podia tirar o presidente do Senado do jogo. Explicaram que era outro Renan, candidato a presidente. Rui fez a única conta possível: em vinte e quatro horas, um advogado tinha virado ministro e um Renan tinha virado dois. Brasília tem dessas: quando você para de olhar, ela não muda de assunto, muda de elenco.
Na terça, o mesmo ministro liberou o mesmo Renan, e à tarde a semana ganhou dono. Um ministro do Supremo chamado Mendonça tirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal com mensagens de um banqueiro a outro ministro, Alexandre de Moraes. O banqueiro, dois dias antes de ser preso, perguntava se precisava deixar o país. Rui conhecia o Moraes: era o secretário de Justiça do Alckmin. Agora estava no Supremo, tinha prendido um ex-presidente, e o filho do ex-presidente pedia o impeachment dele no Senado. Rui pediu a terceira cerveja e não fez conta nenhuma.
A quarta começou pela jornada de trabalho. Em 2006, a emenda das quarenta horas era uma senhora de onze anos parada na Câmara. Em 2026, a comissão do Senado aprovou outra, com o mesmo número de horas. O plenário não votou, e o presidente da Casa prometeu votar a jornada dos outros depois da eleição. Na mesa, ouvindo a promessa, estava o senador que apresentou a primeira emenda em 1995 e se aposenta em janeiro. Rui pensou na escala: o país trabalha seis dias e descansa um; a proposta trabalhou mais um par de anos e agora descansa sabe-se lá por quantos.
Mas a televisão passou a quarta em outra sala: a primeira sessão do Supremo depois das mensagens, os dois ministros lado a lado, sem se cumprimentar. Em 2006, Rui não sabia o nome de três ministros do Supremo, e não precisava. Em 2026, o bar sabia o nome de todos e tinha opinião sobre cada um. Um freguês contou que o presidente do Senado tinha na mesa mais de cem pedidos de impeachment contra ministros, e tinha dito que não achava nada. Era o Alcolumbre. Rui lembrou de um deputado do Amapá para quem tinha aberto uma ou duas portas. Quem abre portas sabe que uma delas, cedo ou tarde, dá na presidência de alguma coisa.
Caro leitor, faça o teste comigo: procure, entre os assuntos desta semana, um que não era pauta de bar há vinte anos. Guarde a resposta. Ela vai ser cobrada no fim.
Na quinta, o imposto da blusinha morreu nos dois plenários, dois anos depois de o mesmo governo tê-lo criado. À noite, o presidente do Supremo deu cinco dias para os dois ministros se explicarem, e o ministro das mensagens respondeu pedindo a investigação do ministro do relatório. Rui não precisou de tradução: em Brasília, o acusado que acusa de volta não está se defendendo, está mudando de assunto. E funcionou. O bar passou a noite discutindo o segundo ministro, e ninguém mais perguntou o que o primeiro tinha respondido ao banqueiro que queria saber se devia fugir do país. Rui entendeu que não tinha voltado a um país mais calmo. Tinha voltado ao mesmo país, e a briga tinha subido de andar.
Na parede do bar, entre o quadro do Líbano e o espelho, alguém tinha colado um santinho. Treze. Rui reconheceu o rosto antes de reconhecer a idade: era o mesmo homem de 2006, vinte anos mais velho e com o mesmo sorriso. Ao lado, menor, o adversário daquele ano sorria como vice. A mesa ao lado perguntou: e você, é Lula ou Bolsonaro? Rui respondeu com a sinceridade de quem acordou na segunda: tinha votado no Alckmin, contra o Lula. O bar inteiro riu, e alguém explicou que agora dava para votar nos dois de uma vez. Foi ali que Rui somou os vinte anos. Não pelo país, pelo rosto. Em 2006, aquele homem faltava aos debates com vinte e quatro pontos de vantagem. Em 2026, faltava com dois, e o gesto era o mesmo. Repintaram a placa. Não trocaram o rosto. E o púlpito vazio envelheceu pior do que o homem.
Na sexta, Rui fez o que tinha evitado em 2006: sentou na mesa de sempre e escreveu o report. Pôs no papel que a semana tinha aprovado coisas de verdade, e que iam mudar alguma coisa. Tinha perdido muito enquanto dormia: uma recessão, um impeachment, uma pandemia, uma suposta tentativa de golpe, uma moeda que virou quadradinho preto, e um secretário de Justiça que virou o homem mais discutido do país. Mas escreveu também o que a régua media. O presidente era o mesmo. O adversário virou vice. O advogado da campanha virou o juiz da eleição. O secretário virou ministro do Supremo. O deputado do Amapá virou a mesa em que tudo espera.
Terminou com a pergunta que não cabia num report: se, depois de tanto esforço concentrado, alguma coisa ia mudar. Não respondeu. Escreveu, no lugar da resposta, que mandaria o próximo na sexta seguinte, e assinou. Cobro a resposta que pedi. Se você não achou assunto novo, não se culpe: Rui também não achou, e mesmo assim não voltou para a montanha. Fé, em Brasília, talvez seja só isso: a decisão de continuar acordado até a próxima sexta-feira.
Rui Vaz Wanderley é neto de Rip Van Winkle, o holandês de Nova York que Washington Irving pôs para dormir vinte anos em 1819. O sobrenome mudou na travessia. O sono, não.