O Cobogó

Teoria do bom eleitor

— Está com sono?

— Não, senhor.

— Nem eu. Sente aí. — O pai apontou a cadeira em frente e empurrou para o lado a travessa do jantar. — Que horas são?

— Onze.

— Dá tempo. Amanhã você vota pela primeira vez, e filho meu não entra naquela cabine sem preparo.

— Eu me preparei, pai. Li os programas.

— Pois esse foi o seu primeiro erro. Programa é como bula: quem lê desiste do remédio.

— E o senhor, vai votar em quem?

— Calma. Nome é sobremesa, vem no fim. À meia-noite eu digo. Antes, ouça. Ser eleitor é um ofício, e todo ofício tem método. O meu tem três lições e uma proibição. Você anota?

— Pode falar.

— Primeira lição — disse o pai, contando no polegar. — Escolha o lado antes da ideia. Ideia dá trabalho, envelhece, exige manutenção. Lado, não. Lado a gente recebe em casa, ainda menino, e leva para o túmulo sem nunca ter precisado explicar.

— E se o lado estiver errado?

— Lado não erra, meu filho. Quem erra é o outro lado. É para isso que ele existe.

— O vô era assim?

— Seu avô votou no mesmo lado a vida inteira e morreu sem saber o nome de um vice. Nunca perdeu uma noite de sono. Tome nota.

— Anotado.

— Segunda lição: tenha sempre uma frase pronta. Uma só, curta, que sirva para o almoço de domingo, para o elevador e para o grupo da família. A frase pronta é o guarda-chuva do eleitor: ninguém admira, mas quem sai sem ela se molha.

— Qual é a do senhor?

— “É o menos pior.” Repare na beleza: serve para qualquer lado, em qualquer ano. Uso desde 1994.

— E quando pedirem um argumento?

— Mude de candidato. Fale do outro, sempre do outro. Do seu, quanto menos se disser, melhor: é o outro que sustenta a conversa.

— O senhor viu a pesquisa de hoje?

— Qual delas? — devolveu o pai, mais alto do que a sala pedia. — Terceira lição: escolha a sua pesquisa. Esta semana saiu uma por dia. Numa ganha um, noutra ganha o outro, numa terceira dá empate. Você fica com a que lhe dá razão e desconfia das demais. Pesquisa boa é a que confirma o que você já sabia.

— E se a outra pesquisa estiver certa?

— Está vendo? É por isso que eu não gosto de pergunta. Pergunta é goteira, meu filho. Começa com um pingo e termina com a sala cheia de balde.

— Entendi. Lado, frase, pesquisa. E a proibição?

— A proibição é uma só, e foi por causa dela que eu chamei você aqui. Você pode errar o candidato. Pode errar o número. Pode até anular sem querer. O que um eleitor não pode, em hipótese nenhuma, é duvidar.

— Duvidar de quê?

— De nada. Em público, nunca. Jamais diga “não sei”. Jamais diga “depende”. E a pior de todas, a que acaba com a reputação de um homem: jamais diga “os dois têm um pouco de razão”. Eu vi famílias inteiras desfeitas por essa frase.

— Mas, pai, e se eu não souber mesmo?

— Então faça cara de quem sabe. A dúvida é coisa íntima, como dívida e medo de barata. Todo mundo tem. Ninguém leva para a mesa.

— Todo mundo tem?

— Modo de dizer. — O pai olhou para o teto.

— Meia-noite, pai.

— Já? Então chega de aula. Vamos dormir, que é tarde, e amanhã a fila começa cedo.

— O senhor prometeu o nome.

— Prometi? — O pai ajeitou os talheres, que já estavam ajeitados.

— De sobremesa.

— Você ouviu? Está pingando em algum lugar.

— Não está chovendo, pai.

— O voto é secreto, meu filho — disse o pai, ainda procurando o pingo no teto. — Está na Constituição.

— O senhor contou para a mãe.

— Contei em agosto.

— E continua o mesmo?

— Depende.

— O senhor disse “depende”.

— Depende da pesquisa, eu ia dizer.

— De qual delas?

— É o menos pior — respondeu o pai, que era a frase que tinha à mão.

— Qual dos dois?

— Não sei. — Ficaram os dois um instante ouvindo a goteira que não existia.

— Pai.

— O lado está onde seu avô deixou. Eu é que não paro quieto. Faz três semanas que eu deito decidido por um e acordo decidido pelo outro — disse o pai, baixo, pela primeira vez na noite. — Os dois têm um pouco de razão. Pronto. Falei a frase.

— A que desfaz famílias?

— Essa.

— A nossa continua aqui.

— Por enquanto. Sua mãe ainda pensa que eu resolvi em agosto.

— E as três lições?

— Valem. Na sua idade eu tinha certeza de tudo, e não precisava de método nenhum. Depois a certeza vai embora e fica só o método.

— E amanhã?

— Amanhã eu entro na cabine, fico sozinho com a máquina e resolvo. É o único lugar deste país onde a gente pode não saber em paz. Dura um minuto.

— Posso ir com o senhor?

— Pode. Mas cada um na sua cabine. A minha dúvida eu não empresto.

— Eu também não sei ainda.

— Eu imaginei. Você leu os programas.

— Isso é hora de aula? — A mãe estava na porta, e nenhum dos dois sabia desde quando.

— Aula de véspera — disse o pai, de novo na voz do começo. — O rapaz já sabe votar.

— Sabe? E vai votar em quem, meu filho?

— É o menos pior, mãe.

— E a senhora?

— Eu resolvi em agosto, como seu pai. — A mãe olhou para o teto. — Vamos dormir, que amanhã tem almoço de família.

Este diálogo é neto da "Teoria do medalhão", que Machado de Assis publicou em 1881. Lá, um pai ensina ao filho de vinte e um anos a arte de vencer na vida sem ter ideias. O ofício mudou. O método, não.

Sobre o autor
Retrato de João Andrade

João Andrade

Paraense, morou mais de uma década em São Paulo antes do desembarque em Brasília. Observador por temperamento, acompanha a política e escreve sem pauta nem obrigação, somente o que lhe interessa.

O texto termina aqui. A conversa, não.

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