Namorei Brasília por cinco anos e só a conhecia dormindo. Vinha duas vezes por mês, sempre de sexta a domingo, quando a cidade é uma maquete bem cuidada: nada fora do lugar e ninguém dentro dela. Confesso o preconceito que eu trazia na bagagem, e era exatamente esse: uma cidade organizada demais para ser interessante. Levei anos achando graça da Rua das Farmácias, onde as farmácias ficam todas enfileiradas, uma ao lado da outra, como se alguém tivesse resolvido o problema e ido embora. Hoje aquilo me parece a coisa mais civilizada deste país.
Aprender a cidade foi rápido: no final das contas, ela é planta baixa e tudo está escrito em algum canto. A política, por outro lado, não vem com legenda alguma. Descobri que precisava de um glossário, mas logo percebi que ninguém havia escrito nenhum. Por isso, escrevo o meu próprio.
De um lado, fica o que eu trazia na mala. Do outro, o que a cidade cobrou na chegada. E este glossário começa, como quase tudo por aqui, numa terça-feira.
Terça-feira (s.f.)
O que eu achava: um dia útil.
O que é: o dia em que a cidade inteira acontece de uma vez.
Brasília trabalha em dois dias. O parlamentar desembarca na terça e vai embora na quinta, porque sexta é dia de base e a base quase nunca é aqui. A cidade foi erguida no meio do mapa para ficar perto de tudo, mas acabou não ficando perto de quase nada. O que sobra são quarenta e oito horas por semana em que tudo o que exige gente presente precisa caber. Um paulistano entende de primeira: oferta curta, demanda de um país inteiro. O que se negocia aqui não é informação, é meia hora de reunião numa terça-feira.
E uma reunião, por outro lado, também não é, nem de perto, a mesma coisa por aqui.
Reunião (s.f.)
O que eu achava: o lugar onde se decide.
O que é: o lugar onde se confirma o que já foi decidido em outro lugar.
A decisão chega pronta. Ela foi tomada no corredor, no elevador ou em quinze minutos de café. Já a reunião existe para que alguém a diga em voz alta diante de quem precisa ouvir. E há uma razão para isso, a mesma do verbete anterior: quando a semana tem quarenta e oito horas, não existe tempo hábil para buscar consenso. Decide-se antes, a dois, e, enquanto essa conversa acontece em algum lugar, alguém espera.
Atraso (s.m.)
O que eu achava: falta de educação.
O que é: o sistema de informação mais eficiente da cidade.
Acredite: espera-se muito por aqui. Meia hora é pontualidade, duas horas não são escândalo, e há compromissos que escorregam de um dia para o outro sem que ninguém peça desculpas, porque não há o que desculpar. Quem espera é sempre o menos importante da sala, e o relógio traz esse recado para que ninguém precise dizê-lo em voz alta. Levei meses para parar de me ofender, e mais alguns para entender que aquilo estava me informando, de graça, qual era a minha posição na fila.
A mesma hierarquia que está no relógio está no vocativo.
Presidente (s.m.)
O que eu achava: um cargo.
O que é: um prenome, levado muito a sério.
A autoridade é tratada pelo título antes do nome, sempre. Descobri isso do jeito mais barato disponível, cumprimentando alguém pelo primeiro nome seco na minha primeira semana. O silêncio que se fez em volta foi mais didático que qualquer manual. E o título, aqui, não expira: quem presidiu alguma coisa segue presidente anos depois, em qualquer sala, mesmo que a coisa presidida não exista mais. Existe ainda uma regra de etiqueta a mais: você sempre deve usar o maior cargo que a autoridade já teve. Vale para presidentes, mas também para deputados, senadores, ministros… E a lista vai longe.
Sei que é complicado, caro leitor. Na dúvida, arrisque para cima — e quem diz isso não sou eu, é a rua. Esse aprendizado vai junto com o glossário.
Planejamento (s.m.)
O que eu achava: o começo do trabalho.
O que é: uma forma cara de se decepcionar.
Cheguei com mentalidade de São Paulo e um instinto automático: montar o plano do ano, com metas, marcos e acompanhamento mensal. Durou exatamente um mês. Aqui a agenda não é sua, é do calendário político, e o calendário político responde a coisas que ninguém controla. O que funciona é outra coisa: conhecer a pauta melhor do que os outros, estar por perto quando ela se move e ter o argumento pronto no dia em que a janela abre. Parei de planejar e ganhei efetividade.
Mas por aqui eu paro, que de expediente já basta. Nada disso explica por que eu fiquei em Brasília, e vou tentar contar sem me alongar demais.
Brasília (s.f.)
O que eu achava: a capital federal do Brasil, inaugurada em 1960.
O que é: casa.
Tudo o que o dicionário diz sobre Brasília é verdade, e nada disso ajuda. Fui aprender a definição que importa no lugar errado: passei um ano entrando e saindo dos dois prédios que aqui se chamam Casas, de terno nas terças, chamando cada um pelo título antes do nome, convencido de que a cidade ficava ali dentro. Leva um tempo até você notar a piada que a língua faz sem querer: Brasília chama de Casa exatamente os dois lugares onde ninguém mora.
Ela não fica ali. Fica no caminho de volta, que aqui tem quinze minutos e nenhum congestionamento, e essa é a sorte que eu não havia calculado: um dos ofícios mais importantes deste país é praticado a quinze minutos de onde eu durmo. Nada disso se enxerga de avião, nem em três dias de visita.
Falta a razão que não cabe em glossário nenhum, e é a única que eu não vou definir para você. Digo apenas que ela é a única daqui que eu já conhecia acordada. Por cinco anos foi por ela, e não por Brasília, que eu embarquei duas vezes por mês, sempre na sexta, sempre de volta no domingo. A cidade veio por tabela, e só acordou para mim quando eu vim para ficar, e então me mostrou numa terça-feira tudo o que nunca havia me mostrado num daqueles fins de semana.
Depois que entendi isso, entendi Brasília e casei com ela.