O Cobogó

Franca, soberana

Franca, interior de São Paulo, é a capital brasileira do sapato masculino. Lá, o 13 de agosto começou como todos os dias começam: couro, cola e forma. Terminou diferente. De Brasília, a três dias da campanha, veio o anúncio: o governo abria o processo de reciprocidade, o rito que estuda taxar produtos americanos de volta após o tarifaço. Do próprio setor veio o número que ninguém emoldura: pela primeira vez desde 1997, o país gastou mais comprando calçado de fora do que ganhou vendendo o seu, e a balança do setor fechou um mês no vermelho. Das duas notícias, uma foi desenhada para ser vista; a outra apenas aconteceu, e a ironia de terem chegado juntas é o assunto deste texto.

Couro, cola e forma. Repare na última: a forma é o molde que dá corpo ao couro, e é feita sob a especificação do freguês. A numeração dele, a largura dele, o padrão da marca dele. Produção encomendada para um mercado não atravessa para outro na semana seguinte. Não é falta de coragem; é questão de molde. Quem fez o sapato na forma do freguês está costurado ao freguês. E o freguês de fora, em Franca, fala inglês desde 1970, quando o primeiro embarque subiu o mar. Poucos lugares sentiram as tarifas tão na pele quanto ali.

À primeira vista, o gesto de Brasília foi feito em nome de quem produz em Franca. É esse exportador que a reciprocidade promete vingar, e é por ele que a palavra soberania sobe ao palanque. Ao exportador, porém, o processo, que por lei começa em consulta, não devolve um freguês, não reabre um mercado, não taxa um concorrente; entrega uma promessa em análise. Quem levou algo para casa naquele dia foi a campanha, que estreou três dias depois já com o embate ensaiado. Enquanto isso, a pior notícia do setor em vinte e nove anos de série corria discreta pelas páginas de economia. O protegido sangrava; o protetor discursava.

O presidente Lula transformou uma agressão real ao Brasil em matéria-prima de campanha. Preferiu o palanque ao balcão quando o balcão mais fazia falta. E deu a essa preferência o nome de soberania. Para entender melhor, é preciso abrir uma carta de um ano atrás.

Julho de 2025. Washington anuncia tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros e, coisa rara em documento de comércio, declara o motivo verdadeiro: o julgamento de Jair Bolsonaro, que o presidente americano chamou de perseguição. A agressão nasceu confessa. Registre-se, porque é a única franqueza que esta história vai oferecer. Nada absolve quem impôs a tarifa. Mas o troco que damos, esse sim, é por nossa conta.

Houve um momento, nesta mesma história, em que o troco foi bem escolhido. Ninguém se lembra dele, e esse é o ponto. No fim de 2025, o cerco afrouxou sem alarde: o café, a carne, a fruta e uma prateleira de outros itens saíram da mira das tarifas, e uma negociação sem holofote fez cair a sobretaxa que pesava sobre o Brasil. O ano fechou em recorde de exportação. Em fevereiro, a tarifa morreu na própria casa: a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou a base legal da cobrança, e o Brasil não precisou erguer a voz para vencer. O governo tentou assinar as vitórias em nome próprio. Acordo, porém, não vira jingle, lista de exceções não estampa boné, e ninguém abraça desconhecido na rua por causa de um recorde de exportação. O silêncio vencia, mas não rendia. Enquanto a eleição estava longe, vencer bastava. Foi 2026 que trocou o critério: ano de eleição vive do que rende.

Se ano de eleição vive do que rende, nenhum produto rende mais que a crítica ao agressor. Desde setembro, quando os dois presidentes se cruzaram na ONU e se saiu dizendo que houve química entre os dois, a imprensa contou: ao menos trinta e cinco críticas públicas de Lula a Trump. Química curta, essa. As pesquisas mediram o rendimento: a aprovação do presidente subiu com o embate, e quatro em cada dez brasileiros dizem que ele está certo na disputa. Ataca-se muito, e o ataque paga. Mas resta um arremate quase cruel: o próprio presidente Lula já nos ensinou, em visita a um centro da Marinha, que “a gente não tem soberania nacional porque a gente faz discurso. O discurso é só palavra. O adversário às vezes nem escuta”. A frase é boa. Guarde-a. Quem sabe, passada a eleição de outubro, quem anda contando críticas ganhe uma folga.

A tarifa voltou em julho de 2026, com numeração nova: 37,5% sobre cerca de três mil produtos. Nesse caso, a mecânica importa: a carta de 2025 não trazia só a tarifa; mandava também abrir uma investigação comercial contra o Brasil. A tarifa morreu no tribunal; a investigação seguiu viva, e foi dela que saiu o grosso da rodada nova. O plano B estava escrito desde o primeiro dia. O balcão não falhou; o agressor cumpriu o roteiro.

Mas voltemos ao 13 de agosto. Três dias antes do início da campanha, abre-se o processo de reciprocidade, que não taxa produto nenhum: inaugura uma análise. A nota oficial, comedida, fala em consultas e diálogo. O discurso, mais uma vez em volume de comício, com a palavra soberania a cada oportunidade. Lembra da frase que pedi para guardar? Discurso é só palavra; adversário, às vezes, nem escuta. Mas há quem escute cada sílaba: o eleitor.

Há um detalhe correndo em paralelo que dispensa intérprete. A taxa das blusinhas, os 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, foi criada em 2024 com a sanção do próprio presidente Lula, para proteger a indústria nacional: cobrava do produto de fora o imposto que a fábrica daqui já paga. Em maio de 2026, o mesmo Lula zerou as taxas por medida provisória, e o motivo mora no calendário: as pesquisas apontavam a taxa como uma das medidas menos populares do governo; a MP veio na sequência. Medida impopular e eleição não combinam. Hoje, Franca apanha nas duas portas: a tarifa fecha a de fora, a isenção escancara a de dentro. A soberania, pelo visto, consulta o calendário: ruge na porta americana, estende o tapete na asiática, e deixa a conta na porta brasileira para a próxima posse.

O 13 de agosto abriu esta história; agora a fecha. Em Brasília, um processo com palanque. Em Franca, um mês no vermelho. Para Franca, ninguém escreve. Amanhã, por lá, o dia recomeça como sempre: couro, cola e forma.

Soberania não é volume de voz. É ofício, é freguês, é escolha. Quando um presidente gritar soberania, repare para onde ele olha. Não será para Washington. Será para a urna de outubro, o único balcão onde o poder volta às mãos de quem o emprestou. Para o político, o silêncio vencia, mas não rendia. Para você, o voto é o gesto mais silencioso que existe, e também o que mais rende. Esse troco ninguém dá por nós. Soberana, caro leitor, é Franca. Soberano é você.

Sobre o autor
Retrato de João Andrade

João Andrade

Paraense, morou mais de uma década em São Paulo antes do desembarque em Brasília. Observador por temperamento, acompanha a política e escreve sem pauta nem obrigação, somente o que lhe interessa.

O texto termina aqui. A conversa, não.

Me diz o que este texto te provocou: eu leio e respondo no WhatsApp.

Quer receber os próximos?

Deixe seu e-mail ou seu WhatsApp que eu te mando por lá.

Como você quer receber

Seu contato fica só comigo e você sai da lista quando quiser.

Continue lendo

Voltar à edição →