Na noite de trinta de abril de 1946, as luzes se apagaram na Urca. Menos de cem dias depois de assumir, o presidente Eurico Gaspar Dutra assina um decreto fechando todos os cassinos do país, e a justificativa escrita invoca a tradição moral, jurídica e religiosa do povo brasileiro. Consta que houve influência doméstica e episcopal na decisão, mas isso é assunto para outro texto. Passou uma geração e o mesmo inquilino que foi posto na rua naquela noite levou quase oitenta anos para conseguir endereço legal neste país, e conseguiu exatamente quando endereço físico já não fazia muita diferença.
Naquela época, ninguém anotou quantos apostavam, e confesso ao leitor que a ausência me incomodou mais do que eu esperava. Sabe-se quantas casas havia, algo em torno de setenta, do Rio a São Lourenço. Sabe-se onde ficavam, quem era o dono, quantas portas tinham. De quem entrava por elas, nada.
Hoje, o país acompanha cada transferência que sai de cada conta, e mediu que 14% da população apostava em 2023 e 17% em 2025. Parece pouco até você procurar com o que comparar: fumam 11,5% dos adultos brasileiros, e 20% terminaram uma faculdade. Já se aposta mais do que se fuma neste país, e quase tanto quanto se tem diploma. Em menos de uma década, a aposta virou uma das maiores indústrias de consumo do país, e com um detalhe que importa: a receita dela é justamente aquilo que os clientes perderam.
E não trago isso no tom de denúncia. Veja: toda banca do mundo vive do que o cliente deixa na mesa, inclusive as loterias que o próprio Estado opera há décadas. Se o critério fosse o dano, metade do que é legal neste país cairia junto, a começar pelo que se bebe no domingo. Não advogo pela proibição de coisa alguma, e sigo firme achando que o adulto deve responder pelo que faz. Se fôssemos imunes aos nossos próprios impulsos, a cartilha que nos rege talvez fosse bem menos vistosa. Hoje, o cigarro não pode ser anunciado nem fumado em lugar fechado; o destilado tem propaganda restrita, e quem bebeu não dirige; e mesmo o cassino da Urca segue proibido desde 1946.
Nenhuma dessas regras confia no autocontrole do ser humano adulto, e é isso que me intriga: por que, com as bets, o país resolveu apostar em nós?
Fui procurar onde a regra aperta, e ela até que aperta bastante. Do lado de lá do balcão a cartilha é densa: quem quiser operar paga outorga milionária, constitui empresa sob a lei brasileira, mantém sede e administração no país, precisa de sócio brasileiro com pelo menos 20% do capital, certifica a plataforma e convive com multas que chegam a R$ 2 bilhões por infração. Sobre o que fica na casa depois de pagos os prêmios incide alíquota que começou em 12% e sobe até 15% em 2028.
Do lado de cá, a cartilha tem um parágrafo. Você precisa ser maior de idade e provar que é você. Só. Não há limite de quanto se deposita por dia, nem de quanto se perde por mês. Não há intervalo obrigatório entre uma aposta e a seguinte, nem valor máximo, nem hora de encerrar. Um cadastro nacional de apostadores chegou a ser proposto em junho de 2025, junto com outras dezenove medidas, e a comissão que as encomendou rejeitou o próprio relatório por quatro votos a três. Foi o momento em que o Estado brasileiro chegou mais perto de escrever regra para o lado do cliente, e não escreveu.
A desproporção entre os dois lados, porém, é bem mais antiga que aquela votação. Começa em quem escreveu a lei. A aposta entrou na lei brasileira pela porta do dinheiro: nasceu, em 2018, dentro de uma norma que tratava de para onde vai a receita das loterias. Cinco anos depois, quando alguém enfim sentou para escrever as regras, coube ao Ministério da Fazenda a tarefa. E não me leve a mal: a Fazenda é ótima no que faz. Mas todo problema entregue a quem cuida de arrecadação acaba resolvido com maestria, pela ótica da arrecadação.
A questão, caro leitor, é que esse nunca foi o problema de verdade.
Diante de um mercado desses cabem duas perguntas. Uma é sobre o quanto se movimenta e sobre a arrecadação. A outra é sobre o que acontece com quem está do outro lado da tela. As duas foram feitas, é justo reconhecer, e a lei tem um conjunto de regras sobre proteção do apostador. Só que as duas foram entregues à mesma casa. Quem cuida de nos proteger da aposta é a mesma secretaria que licencia a aposta e calcula o imposto sobre ela. Para o cigarro havia a saúde pública. Para a bebida havia o trânsito. Para o cassino houve, à sua maneira, a moral de 1946.
Com as bets, a impressão que fica é que ninguém está olhando para o lado de cá. E para onde ninguém olha, caro leitor, é onde está o verdadeiro problema.
Nesse quesito, o cassino da Urca serve de régua mesmo fechado há oitenta anos. Para jogar, você se vestia e saía de casa. Trocava o seu dinheiro por uma ficha antes de começar, e toda troca custava um instante da sua consciência. Falava com o crupiê de uniforme na sua frente. Tinha que ir embora na hora certa. Na tela não sobrou nada disso: não há porta, porque o jogo acontece dentro da própria casa; não há ficha, porque o Pix é o próprio dinheiro; e não há hora de encerrar.
E há a diferença de que ninguém fala. No cassino, você perde diante de gente. Na cama, às três da manhã, você perde sozinho. Estar em casa parece proteção, mas é o contrário: a vergonha é a forma de contenção mais antiga que existe, e depende inteiramente de haver alguém olhando. O saguão da Urca não segurava o ímpeto de ninguém por ser luxuoso, segurava por ser público. A tela anulou a testemunha, e parece que ninguém sentiu falta de uma regra que nunca esteve escrita.
No resto, porém, o apostador não está só: o palpite circula nos grupos, o print do acerto é postado, o domingo ganha um brilho a mais. É coletivo em tudo, menos no instante em que se perde. E o dinheiro entendeu isso antes de nós. O capital estrangeiro não desembarcou aqui por simpatia ao nosso futebol, e o Brasil deve responder por perto de 39% de toda a receita de aposta da América Latina em 2026. Investidor não erra em bloco. Se está tão bom assim para quem entra com capital, é porque não deve estar tão bom assim para quem entra com cinquenta reais.
Esse é o mesmo país que paga 14% ao ano, sem risco nenhum, a quem já tem sobra suficiente para deixar parada, e que não oferece muito a quem não tem. São dois cassinos, e o mais rentável exige saldo para entrar. Roger Caillois escreveu, em 1958, que o jogo de disputa e o jogo de azar existem pela mesma razão, que é criar artificialmente entre os jogadores a igualdade que a realidade nega aos homens. Se 17% dos brasileiros foram até aquela mesa, o problema não está nela. Está lá fora.
E talvez ninguém tenha notado tudo isso por um motivo simples: perder sozinho não faz barulho. A casa mudou de endereço, e o novo endereço é o seu quarto, às três da manhã, por cinquenta reais. Da próxima vez que o anúncio passar no intervalo do jogo, leia a advertência até o fim e repare em quem a assina. Não é o Ministério da Saúde.